Entenda o que é a reciclagem enzimática e como ela quebra polímeros e reaproveita resíduos plásticos

A reciclagem enzimática começa a ganhar espaço nas pesquisas voltadas ao reaproveitamento de resíduos plásticos. O método utiliza enzimas produzidas em laboratório para quebrar polímeros até o estágio de monômeros, permitindo que o material retorne à cadeia produtiva com características semelhantes às do plástico virgem.
Atualmente, os cientistas desenvolvem essas enzimas a partir de microrganismos encontrados em processos naturais de biodegradação. Segundo Marcelo D. Polêto, Doutor em Biologia Celular e Molecular pela UFRGS, “A reciclagem enzimática usa catalisadores biológicos. Essas enzimas possuem um grau de especificidade molecular extremamente alto, que não ocorre em grande parte dos catalisadores químicos”.
O processo segue etapas semelhantes à reciclagem convencional. O plástico passa pela moagem e por um pré-tratamento térmico para alterar as regiões cristalinas do material. Depois, o resíduo entra em um reator com água e enzimas específicas, responsáveis pela quebra das ligações químicas.
Diferentemente de métodos térmicos, a reciclagem enzimática opera em temperaturas moderadas, entre 50°C e 70°C. Dessa maneira, o processo reduz o consumo energético e limita a emissão de carbono durante o reaproveitamento do material.
Ao mesmo tempo, as enzimas ignoram aditivos e outros componentes misturados ao plástico, concentrando a degradação do polímero desejado. Como resultado, os monômeros retornam em estado purificado e seguem para a produção de novos materiais.
Outro ponto observado pelos pesquisadores envolve os resíduos gerados no processo. Nos métodos químicos tradicionais, solventes agressivos participam da separação dos compostos. Já na reciclagem enzimática, a água aparece como principal rejeito.
Conforme explica Polêto, a degradação enzimática mantém maior controle das reações químicas e produz material com alto grau de pureza.
As pesquisas avançam principalmente sobre o PET, polímero que apresenta ligações mais acessíveis para degradação enzimática. Em contrapartida, materiais como polietileno e polipropileno ainda desafiam os cientistas devido às ligações carbono-carbono mais resistentes.
Apesar disso, Polêto afirma que a aplicação em larga escala já se mostra viável do ponto de vista tecnológico. “Do ponto de vista de tecnologia dentro da fábrica, está resolvido. Hoje, é possível degradar PET em 24 horas, com enzimas já bem estabelecidas, que têm durabilidade e termoestabilidade em condições industriais.”
Todavia, o especialista aponta outro gargalo: a ausência de sistemas amplos de coleta seletiva e separação de resíduos. Sem essa estrutura, as operações encontram dificuldades para receber grandes volumes de plástico.
Na França, a Carbios avança na construção de sua primeira unidade de grande porte para reciclagem enzimática de PET. A empresa prevê operação plena entre 2027 e 2028, com processamento anual de 50 mil toneladas.
Pesquisas conduzidas no Brasil tentam ampliar o potencial das enzimas usadas na degradação plástica. Marcelo Polêto trabalha com modelos computacionais capazes de descrever interações moleculares do PET com alta precisão.
Posteriormente, o pesquisador levou os estudos para a Escola de Engenharia de Lorena da USP e para a Universidade Federal de Viçosa, após atuação na Virginia Tech, nos Estados Unidos.
Os trabalhos buscam acelerar a criação de enzimas voltadas à degradação de plásticos mais complexos, ampliando as possibilidades para futuras aplicações em larga escala.
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