Pesquisa mostra que mais da metade das empresas brasileiras já integra sustentabilidade à estratégia, mas desafios como mensuração de retorno e adaptação às regras ainda persistem
Uma pesquisa realizada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil em parceria com a Humanizadas mostra que 87% das organizações já atuam em sustentabilidade, enquanto 59% inserem essa agenda diretamente na estratégia corporativa.

Nesse sentido, 57% das companhias passaram a considerar regulações ambientais e sociais em decisões de investimento e processos comerciais. O levantamento de 2026 indica que 48% mantêm ações em andamento, e revela que 22% já se posicionam como referência no tema. Os outros 17% ainda estruturam suas primeiras iniciativas.
O estudo ouviu 587 executivos de setores variados, como serviços, tecnologia, agronegócio e varejo. Entre eles, 84% ocupam cargos de liderança, o que reforça o peso estratégico das respostas, e 71% representam empresas de médio e grande porte.



Um exemplo deste movimento foi a COP 30, realizada em Belém, que influenciou parte desse avanço. Cerca de 37% dos entrevistados aproveitaram o evento para fortalecer posicionamento institucional, formar parcerias e buscar novos mercados.
Mesmo com esse avanço, apenas 26% afirmam estar totalmente preparados para atender às exigências regulatórias e de reporte. Como resultado, cresce a percepção de que a adaptação ainda ocorre de forma desigual entre as empresas.
Segundo Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, a pesquisa traz um retrato qualificado da agenda de sustentabilidade no país. “Estamos falando de lideranças responsáveis por organizações que movimentam R$ 671 bilhões e empregam mais de 666 mil pessoas, ou seja, quem de fato toma decisão e molda o futuro dessa agenda”, destaca
Apesar do avanço, empresas ainda enfrentam obstáculos relevantes para consolidar a sustentabilidade nos negócios. Entre os principais pontos, 44% dos executivos apontam a dificuldade de comprovar retorno financeiro como um dos maiores entraves.
De acordo com Neto, essa lacuna reflete um desafio maior. “Se antes a pergunta era ‘por que fazer?’, agora é ‘como capturar valor?’. O principal gap está justamente em traduzir sustentabilidade em retorno financeiro mensurável — seja em crescimento, eficiência ou gestão de riscos”, afirma.
Ao mesmo tempo, embora 74% reconheçam valor na agenda, apenas 34% conseguem medir esse retorno de forma estruturada. Dessa forma, muitas iniciativas seguem sem conexão direta com indicadores financeiros claros.
Outro ponto crítico envolve as emissões de carbono. Cerca de 71% das empresas ainda não adotam medidas para reduzir ou compensar impactos, o que evidencia lacunas na agenda ambiental. Em paralelo, temas como biodiversidade e mudanças climáticas continuam em segundo plano.
Já a gestão de dados também apresenta limitações importantes. Aproximadamente 73% das empresas não atualizam sua Matriz de Materialidade. Os 68%, por sua vez, não publicam relatórios de sustentabilidade. Logo depois, 61% afirmam não realizar benchmarking.
Essa ausência de dados estruturados dificulta a conversão de informações em indicadores financeiros. Como consequência, a sustentabilidade perde força como ferramenta estratégica.
Além disso, apenas 31% monitoram riscos e 28% analisam oportunidades ligadas ao tema. Esse cenário reforça uma atuação ainda limitada na gestão integrada da agenda sustentável.
Os resultados também mostram uma concentração maior em ações ligadas à governança e ao social. Práticas como privacidade e segurança de dados aparecem consolidadas em 67% das empresas, enquanto projetos sociais e voluntariado alcançam 61%.
Em contraste, iniciativas ambientais apresentam menor avanço. A inovação em produtos sustentáveis, por exemplo, surge como uma das áreas mais frágeis, segundo 40% dos entrevistados.
Esse direcionamento também aparece nas regulações que mais mobilizam o setor. A norma NR-01 lidera com 42%, superando temas como economia circular, que soma 34%, e mercado de carbono, com 25%.
Esse comportamento indica que empresas priorizam exigências ligadas a pessoas e governança, deixando questões ambientais em segundo plano. Ainda assim, o estudo aponta que tecnologia e inovação concentram 59% da atenção do mercado.
Esse destaque ocorre porque essas áreas apresentam conexão mais direta com redução de custos e ampliação de mercados. Como efeito, empresas direcionam esforços para iniciativas com retorno mais visível.
O estudo também identifica os fatores que influenciam a evolução da agenda sustentável. Entre eles, a comprovação de retorno financeiro aparece como o principal ponto, seguida pelo acesso a capital, citado por 38% dos executivos.
O engajamento de lideranças surge como elemento central para impulsionar ações dentro das empresas. Sem esse envolvimento, iniciativas tendem a perder força ao longo do tempo.
No campo estrutural, empresas precisam investir na produção de dados, no mapeamento de riscos e na identificação de oportunidades. Ainda, a quantificação de impactos financeiros se torna essencial para consolidar estratégias.
Os impactos positivos também aparecem de forma clara. O fortalecimento da reputação lidera com 74%, seguido pela redução de custos, mencionada por 60%. Em seguida, 65% destacam melhor uso de recursos, enquanto 49% apontam crescimento de receita.
Diante desse cenário, empresas avançam na integração da sustentabilidade aos negócios, embora ainda enfrentem desafios para transformar ações em resultados mensuráveis e consistentes ao longo do tempo.
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