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Iniciativas dão sobrevida ao plástico descartado incorretamente

Dispersão de resíduos no meio ambiente dificulta reuso de materiais no setor de embalagens

Transformada em vilã nos últimos anos devido a sua onipresença em forma de poluição, a cadeia produtiva do plástico agora busca se redimir do descarte incorreto feito pelos seres humanos. Além das ações para reduzir o consumo e ampliar a reciclagem, o esforço inclui iniciativas que dão nova vida ao plástico que virou lixo.

No setor de embalagem, um dos maiores consumidores do material, a mobilização é recente. Grandes produtores estão conscientes de que precisam usar plástico reciclado, avalia Ricardo Hajaj, diretor da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico).

Depois de descartado, 79% do material vai parar em aterros ou no meio ambiente. Mais de oito milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todos os anos. O problema ambiental levou a ONU a declarar uma guerra para reverter o quadro apresentado.

O chamado repercute no setor privado – em junho de 2018, a marca Seda, da Unilever, passou a usar plástico reciclado em suas embalagens. A Omo, também da Unilever, lançou uma edição que transformou em frascos o que era lixo abandonado em praias do Brasil. Por ano, até 500 toneladas do material reciclado serão incorporadas às embalagens de sabão.

“A gente, como indústria, coloca uma necessidade no mercado e, dessa maneira, influencia, mexe na cadeia, dirá outra regra, porque compra muito volume”, afirma Juliana Marra, gerente de assuntos corporativos da Unilever, sobre o estímulo ao reuso. Mas, a reinserção na linha de produção, por enquanto, é pouco difundida.

A opção se restringe a estratégias de poucas e grandes companhias, como a Unilever. “O nosso objetivo é aumentar em 25% o uso de plástico reciclado nas embalagens até 2025”, exemplifica Gabriela Cescato, gerente de sustentabilidade para embalagens no Brasil.

A alemã Adidas integra o pequeno grupo que reutiliza plástico recolhido dos oceanos. Em parceria com a ONG Parley for the Oceans, lançou em 2017 seu primeiro tênis feito com 95% de plástico reaproveitado. Na primeira edição foram fabricados sete mil pares, que se esgotaram rapidamente. Com o sucesso de vendas, a marca manteve o modelo e ampliou o uso do plástico, que agora integra também uma linha de roupas esportivas e camisas de times de futebol.

Em 2018 foram produzidos cerca de 5 milhões de pares de sapatos a partir do resíduo, o que representa uma economia de 40 toneladas de plástico virgem, segundo a previsão. Quando se considera uma quantidade de lixo que boia pelos mares, no entanto, essas iniciativas são avaliadas como tímidas.

“As ações são muito pontuais. Para começar a resolver o problema, elas teriam que ser mais orquestradas com indústrias de vários segmentos”, analisa Sylmara Dias, professora do programa de pós-graduação em sustentabilidade da USP (Universidade de São Paulo).

No Brasil, as recicladoras aguardam esse momento. São cerca de mil empresas que, segundo Ricardo Hajaj, da Abiplast, têm condições de trabalhar mais. “Temos uma capacidade ociosa nas recicladoras. O desafio é entregar plástico reciclado em maior quantidade e qualidade, e atingir grandes clientes”, diz.

Resíduo para ser transformado em resina plástica não falta. O problema é que ele está disperso no ambiente, o que eleva muito o custo da operação logística. Esse é um dos motivos que contribuem para que o consumidor final ainda não sinta a economia ao comprar um produto com plástico reciclado.

“As políticas públicas têm um papel fundamental para mudar isso. Faltam incentivos fiscais que privilegiem o uso de material reciclado à virgem, dado que ele tem uma grande economia de recursos”, critica Sylmara Dias.

Na visão de Munir Skaf, pesquisador da Unicamp, “o combate ao plástico no ambiente e, principalmente nos oceanos, tem diversas facetas. Acredito na via biotecnológica”, diz ele.

Skaf fez parte da equipe internacional de cientistas que desenvolveu uma enzima capaz de degradar plástico com mais eficiência, divulgada com entusiasmo em todo o mundo.

Embora a pesquisa ainda esteja em fase inicial, seu impacto é promissor. “Todo o plástico retirado dos oceanos poderia ir para uma estação de tratamento que faz a moagem mecânica e agrega a enzima. Isso deixaria a reciclagem mais rápida e mais eficiente”, afirma o pesquisador, sobre cenários futuros.

Depois desse processo, o antigo resíduo, desconstruído, ganharia novas formas e valores. “A enzima degrada o PET e gera produtos de valor agregado, que valem mais do que o próprio PET”, diz Skaf.

Fonte: Nádia Pontes – Folha de São Paulo

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