Brasil se consolida como base estratégica para metas climáticas de empresas norueguesas e novos acordos comerciais
Com quase US$ 14 bilhões em investimentos acumulados até 2024, a Noruega ocupa hoje a 12ª posição entre os maiores investidores estrangeiros no Brasil. Além disso, cerca de 300 empresas norueguesas mantêm operações ativas no país, segundo o relatório Norway in Brazil: Investment and Trade Report 2025.

Nesse cenário, os aportes diretos cresceram 900% ao longo da última década, movimento que reflete uma mudança no perfil da presença empresarial norueguesa. Desde 2023, aproximadamente US$ 1,8 bilhão seguiram para projetos ligados a fontes renováveis, como solar, eólica, bioenergia, hidrogênio e, mais recentemente, baterias.
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A partir dessa expansão, a relação bilateral entrou em uma fase de maior aproximação política e empresarial. Contudo, o diálogo atual vai além do comércio tradicional, pois a agenda climática passou a ocupar posição central na cooperação entre os dois países.
Assim, temas como transição energética e economia circular orientam decisões de investimento e estratégias corporativas. Esse reposicionamento indica uma parceria focada em temas estruturais de longo prazo, com impactos diretos sobre cadeias globais e políticas ambientais.
A transição energética passou a orientar os novos aportes noruegueses no Brasil. Empresas do país europeu utilizam o território brasileiro como plataforma para reduzir emissões em cadeias globais, aproveitando a matriz elétrica mais limpa e o custo competitivo das fontes renováveis.
Nesse sentido, a estratégia atende às metas corporativas internacionais. “Eles usam o Brasil para atingir as metas globais. Porque aqui é mais barato, mais viável, tem mais oferta de energia renovável.”
Um dos exemplos citados é a planta da Yara, em Cubatão (SP). A unidade investe na produção de amônia e fertilizantes verdes a partir de biogás e biometano. “Com esses investimentos reduziram bastante as emissões, 70% de redução nas emissões.”
Enquanto isso, o setor marítimo e offshore, historicamente ligado à presença norueguesa, também ganhou novos contornos. Em 2024, Brasil e Noruega assinaram um memorando para criar corredores marítimos descarbonizados entre o Brasil e a Europa, com foco inicial em portos da Holanda.
O acordo prevê estudos sobre combustíveis sustentáveis e soluções voltadas ao uso racional de energia, ampliando a cooperação técnica entre os dois países.
O comércio entre Brasil e Noruega acompanha essa nova dinâmica. Atualmente, o Brasil ocupa a posição de principal parceiro norueguês na América Latina. Em 2024, as exportações da Noruega para o Brasil somaram US$ 2,1 bilhões, enquanto as importações chegaram a US$ 2,4 bilhões.
Entre os produtos brasileiros exportados estão insumos para alumínio, soja e café. Da Noruega, chegam tecnologia, manufaturas e pescados. “O bacalhau ainda está bem alto na lista”, disse Tangen.
Diante desse cenário, a expectativa se concentra na ratificação do acordo de livre comércio entre a EFTA — formada por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein — e o Mercosul.
O tratado prevê a liberalização de 97% das exportações e inclui capítulos voltados à sustentabilidade, abrangendo bens, serviços e investimentos. Para a cônsul, o acordo pode ampliar fluxos comerciais em áreas ligadas à tecnologia limpa e a cadeias produtivas mais alinhadas a critérios ambientais.
Se o Brasil já aparece como plataforma de descarbonização na energia, a economia circular desponta como próximo campo de expansão. A multinacional norueguesa TOMRA, especializada em coleta automatizada e triagem de recicláveis, avalia que avanços regulatórios no Brasil podem destravar investimentos em infraestrutura de reciclagem.
Desse modo, o decreto estabelece metas crescentes de coleta, que partem de 30% em 2025 e chegam a 50% em 2040. Bem como de obrigações de conteúdo reciclado pós-consumo, que começam em 22% e avançam até 40% no mesmo período.
A Noruega consolidou um dos sistemas de reciclagem mais bem estruturados do mundo ao apostar na separação de resíduos nas residências. A maioria dos lares utiliza recipientes específicos para papel, plástico, vidro e resíduos orgânicos, seguindo orientações claras das autoridades locais.
Vale ressaltar que este modelo reduz a contaminação dos materiais recicláveis e fortalece o reaproveitamento. Assim, espera-se colocar pontos de coleta e estações espalhadas por áreas urbanas e rurais recebem desde embalagens comuns até eletrônicos, móveis e resíduos perigosos, ampliando a participação da população.
Outro pilar é o sistema de depósito para garrafas e latas, no qual o consumidor paga um valor adicional e o recebe de volta ao devolver a embalagem. O mecanismo elevou as taxas de retorno e estimulou o descarte adequado.
O sistema, operado pela Infinitum, conta com cerca de 3.900 máquinas automáticas e milhares de pontos manuais. Em 2023, o país registrou taxa de retorno de 92,3%, com mais de 1,54 bilhão de embalagens devolvidas.
Como resultado, menos de 1% das embalagens de bebidas têm descarte inadequado, consolidando o modelo como referência global em recuperação de materiais e redução de resíduos.
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